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A arte de criar sem ser visto.

Passos, Geris, Ravena, Luan e Ciane (Reprodução/ Ellu Magazine)

Em um mercado movido por números, streams e rostos reconhecíveis, existe uma camada essencial da música que permanece, muitas vezes, à margem dos holofotes: a composição. Por trás de cada refrão viral, de cada verso que você se identifica e de cada hit que domina as paradas, há mentes criativas que raramente ocupam o centro do palco. Ainda que sejam responsáveis por dar forma às emoções que o público consome, compositores seguem enfrentando uma invisibilidade persistente, especialmente quando o assunto são premiações e reconhecimento público.

Enquanto intérpretes acumulam troféus, manchetes e uma gama de seguidores, muitos dos verdadeiros arquitetos dessas obras permanecem fora das categorias principais, pouco citados e, por vezes, esquecidos. Mas afinal, quem realmente cria a música que ouvimos? E por que esses profissionais ainda lutam por espaço em uma indústria que depende diretamente de seu trabalho?

Nesta matéria, compositores compartilham experiências, questionam estruturas e expõem os bastidores de uma realidade onde talento nem sempre caminha lado a lado com visibilidade.

Como um dos muitos artistas novos, sinto que há poucos olhos sobre a nossa arte.” Luan Moon.

“Eu acredito que tenho muito potencial inclusive no âmbito da escrita, mas acho que na verdade não é dada muita oportunidade para aqueles que não tem um nome tão grande na indústria.” Ravena Sunshine.

“As pessoas acham que é tão fácil escrever uma música quanto formular uma frase simples.” Passos.

Ravena Sunshine (Reprodução/ Ellu Magazine)

Compor uma música sobre qualquer situação exige sensibilidade, repertório e vivência. Nossa comunidade é repleta de compositores com o dom de transformar em palavras aquilo que um intérprete sente e almeja, traduzindo emoções em versos que, muitas vezes, ultrapassam o objetivo inicial de quem solicitou a obra e alcançam o público de forma profunda e pessoal.

Ainda assim, essa capacidade é frequentemente esquecida, deixada à margem em um cenário onde a visibilidade nem sempre acompanha o talento.

“Sinto que os compositores “estão ali”.” Ravena Sunshine.

“Eu enxergo como um grande "se sobrar uma vaguinha ou não tiver nada melhor pra colocar, a gente encaixa".” Geris Fiore.

“Mas o ponto é que sim, os compositores merecem mais espaço dentro de nossa comunidade, seja em premiações, em posts exaltando ou até em até mesmo em notícias [...]”. Ciane Flowers.

Geris Fiore (Reprodução/ Ellu Magazine)

Claro que existem exceções. Algumas premiações buscam, ainda que de forma tímida, incluir diferentes setores da indústria e reconhecer o trabalho por trás dos palcos. No entanto, para muitos profissionais, essa visibilidade ainda não se traduz na prática.

E é justamente nesse ponto que a discussão deixa de ser apenas institucional e passa a ser pessoal. Para além da ausência em categorias e homenagens, a invisibilidade também se manifesta no reconhecimento cotidiano, ou na falta dele.

Mas o que acontece quando uma música ganha o público, viraliza… e, ainda assim, o nome de quem a escreveu não é lembrado ou não creditado?

Passos (Reprodução/ Instagram)

Passos relembra que já viveu essa situação durante o lançamento de “Solta e Sem Pudor”, interpretada por Nicky Mitrava e Ballen. Segundo o compositor, cerca de 90% da obra foi construída por ele, mas seu nome não foi incluído nos créditos oficiais, um apagamento que evidencia, na prática, a fragilidade do reconhecimento dentro da indústria.

Do outro lado, Ravena Sunshine e Geris Fiore relatam uma experiência diferente. Ambos afirmam que, em seus trabalhos, as composições foram devidamente reconhecidas e valorizadas por quem as interpretou, mostrando que, embora o problema seja recorrente, ele não se manifesta de forma uniforme.

Ainda que os relatos revelam experiências distintas, eles convergem para um mesmo ponto: a questão vai além de casos isolados. Quando o reconhecimento depende mais de circunstâncias do que de critérios claros, o problema deixa de ser individual e passa a refletir falhas estruturais dentro da própria indústria.

“[...], são pouco valorizados, não por culpa dele ou do intérprete em si, mas sim por uma questão estrutural, onde aprendemos a apenas consumir sem questionar. Portanto, quando há um novo lançamento, nós, ouvintes, apenas clicamos nos nossos aplicativos e escutamos. Sem querer saber de produção ou composição, afinal queremos apenas o produto.” Ciane Flowers.

Ciane Flowers (Reprodução/ Ellu Magazine)

A reflexão proposta pela artista desloca o debate para além dos bastidores e aponta para o comportamento do próprio público, evidenciando como a cultura do consumo rápido contribui para o apagamento de quem está por trás das obras.

Se, por um lado, o comportamento do público ajuda a sustentar essa lógica, por outro, o próprio mercado reforça quais figuras devem ocupar o centro das atenções. Como aponta Ravena, essa dinâmica está diretamente ligada ao que é considerado vendável: “Acho que tem muito mais a ver com a comercialização do intérprete. O compositor não tem rosto nem voz, a arte dele está na letra que está sendo cantada por outra pessoa. Então é mais sobre isso: o que é comercial e o que não é.”

Entre algoritmos, estratégias de mercado e hábitos de consumo cada vez mais imediatistas, o nome por trás da canção acaba se diluindo, mesmo quando sua contribuição é essencial. Percepção que dialoga com o sentimento de artistas como Luan Moon, que destaca a falta de visibilidade sobre novos talentos, e com a crítica de Geris Fiore, que evidencia como, muitas vezes, o espaço destinado aos compositores ainda parece secundário dentro da indústria.

Luan Moon (Reprodução/ Ellu Magazine)

Ainda assim, os relatos reunidos mostram que, apesar da invisibilidade recorrente, há um movimento crescente de conscientização, tanto por parte dos artistas quanto de iniciativas que buscam reconhecer esses profissionais.

No fim, a pergunta que permanece não é apenas sobre quem canta, mas sobre quem cria, e até quando esses nomes continuarão sendo deixados em segundo plano em uma indústria que depende, essencialmente, de sua existência.

Você pode conferir, na íntegra, as entrevistas completas com cada artista mencionado nesta matéria.
Entrevista com Ciane Flowers, Geris Fiore, Luan Moon, Passos e Ravena.