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Entrevista completa com Ciane Flowers.

Entrevista com Ciane Flowers.

1. Você acredita que os compositores são pouco valorizados na indústria? Por quê?

Eu acho que grande parte dessa invisibilização se dá devido à proximidade e aos contatos, as famosas bolhas existentes dentro do nosso mundo artístico. Isso faz com que muitos percam o interesse de pesquisar mais sobre outros artistas, focando apenas nos que fazem parte do próprio convívio. O que não é de mal nenhum, mas, quando se trata de um universo que se destaca por ser um “local seguro”, é de extrema importância estarmos atentos aos demais lançamentos e dar a devida atenção aos mesmos.

Eu, como uma artista que prefere produzir tudo do zero, vejo a composição como uma parte sagrada da música, pois é através desse conjunto de palavras que vou expressar sentimentos que talvez, apenas falando ou escrevendo em textos, não conseguiria externalizar. Além de frases que façam sentido, é necessário que haja coesão e também rimas, que muitas das vezes não se fazem tão importantes. Mas o ponto é que sim, os compositores merecem mais espaço dentro da nossa comunidade, seja em premiações, em posts exaltando ou até mesmo em notícias, trazendo à tona o “eu lírico” por trás das músicas que consumimos.


2. Você acredita que essa desvalorização é estrutural?
Creio que sim, são pouco valorizados, não por culpa dele ou do intérprete em si, mas sim por uma questão estrutural, onde aprendemos a apenas consumir sem questionar. Portanto, quando há um novo lançamento, nós, ouvintes, apenas clicamos nos nossos aplicativos e escutamos, sem querer saber de produção ou composição, afinal queremos apenas o produto.

3. Você já foi indicada a alguma premiação? Como foi essa experiência?
Antigamente eu não me submetia em categorias de compositor(a) por não me achar tão boa quanto meus colegas de trabalho, mas recentemente fui indicada em “Compositor do Ano” pelo Ellu Awards, o que me deixou extremamente feliz de apenas ser reconhecida dentre muitos.


4. O que você acha que poderia mudar nas premiações para valorizar mais os compositores?
Creio que trazer essa categoria como uma das principais daria mais ênfase à importância do compositor no processo da música, quem sabe influenciando outras pessoas a comporem também.

5. Você acredita que existe uma hierarquia entre intérprete e compositor?
Não sei se há uma hierarquia, mas o estrelato e o sucesso vão para o intérprete. É como expliquei anteriormente, sobre a questão de apenas querermos o produto finalizado, sem saber a procedência.


6. Como você define sua identidade como compositora?
Minha identidade como compositora é trazer à tona problemáticas sentimentais e sociais de uma forma nua e crua, sem muitos rodeios. Creio que esse seja um dos meus diferenciais: trazer uma reflexão com uma música de fácil acesso e entendimento.

7. Como você lida com suas composições sendo interpretadas por outras pessoas?
Eu acho que, quando uma composição minha vai para outra pessoa, eu tenho a obrigação de deixá-la o mais próxima da identidade e do conceito da pessoa, para que minhas ideias transbordem através de terceiros.

8. Você já sentiu que alguma composição sua perdeu o sentido original?
Creio que não. Das poucas que já ajudei, eu tentei trazer um lado de ambos para melhor encaixe.


9. Você abre mão da sua autoria em prol do mercado?
A música sempre será sagrada, algo que me cura, que me preenche e dá sentido em tudo que eu faço. Se eu escrevo e produzo, é porque realmente me ajuda de alguma forma, seja me entendendo melhor ou até mesmo ajudando terceiros. Prefiro fazer algo que eu verdadeiramente gosto e que sei que eu também gostaria de consumir, do que apenas uma música vazia.

10. A invisibilidade dos compositores é algo cultural ou estrutural?
É algo que está intrínseco dentro da nossa estrutura artística, não há como controlar. Principalmente na forma como funcionam as redes sociais, com o imediatismo, tudo se dá muito rápido e se vai muito rápido, fazendo com que as pessoas não tenham interesse em pesquisar sobre informações extras do produto consumido.


11. Existe diferença na valorização dos compositores entre gêneros musicais?
Creio que sim. Em estilos dados como “marginalizados”, como por exemplo o rap, a composição às vezes é desvalorizada por falar algum palavrão ou por usar palavras informais em sua construção. Mas o que muitos deixam de lado são as métricas, as linhas e o contexto. Compor também é um ato político.

12. As redes sociais ajudam ou atrapalham na visibilidade dos compositores?
Ajudam demais, pois é através delas que muitos artistas colocam nas legendas das fotos o processo criativo da música e informações para quem se interessa.

13. O que o público pode fazer para valorizar mais os compositores?
Creio que pesquisando sobre as informações da música, indo atrás de quem produziu também. Pois quem faz o hit também é o compositor, uma via de mão dupla entre intérprete e compositor.