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Entrevista completa com Passos.

Entrevista com Passos.

1. Você já sentiu que seu trabalho foi reconhecido menos do que deveria? Em que momento isso ficou mais evidente?
Isso acontece com muita frequência, na verdade. As pessoas acham que é tão fácil escrever uma música quanto formular uma frase simples. Às vezes, as coisas simplesmente não acontecem e a gente precisa tirar criatividade de onde não tem. Pode não parecer, mas ser compositor, principalmente em uma bolha como o FiveM, é um grande desafio.

2. Você acredita que o público sabe quem está por trás das músicas que consome?
A maioria não. É claro que nomes como o meu e o do Oziel já são “figurinhas marcadas” para quem quer iniciar uma composição, mas apenas para aqueles que buscam produzir algo. O público geral não se importa com isso, então mesmo os mais conhecidos são apagados.


3. Já aconteceu de uma música sua fazer sucesso e seu nome não ser mencionado? Como isso te afetou?
Sim. Nesses casos, eu vou atrás do responsável para adicionar os créditos e lanço um “balança-caixão” público, como foi o caso de “Solta e Sem Pudor”, da Nicky Mitrava, que foi 90% escrita por mim e sequer tinha o meu nome na ficha.


4. Você já foi indicado(a) a alguma premiação? Como foi essa experiência?
Toda vez que sou indicado a alguma premiação é um novo sentimento. Fico feliz, animado e motivado, mas também com medo de ser avaliado por alguém que não trabalha na área e ter o meu nome apagado, como já aconteceu diversas vezes.

5. O que você acha que precisa mudar nas premiações para dar mais visibilidade aos compositores?
Achei muito interessante que o Ellu Awards deste ano incluiu a lista de produtores e compositores nos trabalhos musicais. Acho essa a iniciativa que mais pode funcionar para nós que fazemos a nossa vida em cima disso. Afinal, não é apenas o dinheiro de uma composição, mas o espaço que você ganha para continuar apto a seguir trabalhando com seu sonho.


6.Você acredita que existe uma hierarquia injusta entre intérpretes e compositores?
É claro que sim. Mas isso vai muito além do FiveM. É muito mais fácil, por exemplo, endeusar a Luísa Sonza do que a Carolzinha, porque uma é a diva pop que entrega o que é palpável e a outra permanece nos estúdios fazendo com que isso seja possível, mas sequer é lembrada ou conhecida pelo público geral.

7. Como você define sua identidade como compositor(a)?
Existe o Passos compositor profissional e o Passos autor autobiográfico. Música é algo totalmente subjetivo e, às vezes, algo só não faz sentido para alguém, mas faz para outra pessoa.

8. O quanto você abre mão da autoria em prol do mercado?
Eu não diria que abro mão da autoria em prol do mercado, mas faço o que for preciso para meus colaboradores saírem satisfeitos. Agora, no que diz respeito às minhas músicas, eu não abro mão de forma alguma para agradar ninguém, até porque minha discografia é a sequência de capítulos do que minha vida um dia ainda vai ser. O mercado não conseguiria mudar isso em mim.


9. Você acredita que a invisibilidade dos compositores é estrutural ou cultural?
Acho que uma opção não exclui a outra. É cultural porque hoje a mídia tem seus critérios favoritos, que não incluem a composição, e é estrutural porque isso está tão implantado na cultura pop que ninguém nem toca no assunto. Ou você sabe quem escreveu os grandes hits do Roberto Carlos?

10. Existe diferença na valorização entre compositores de diferentes gêneros musicais?
No pop e no funk, quase ninguém se importa com isso, mas, em outros gêneros como rap, folk, bossa nova e MPB, os compositores são bem mais creditados. Quanto mais nichado o gênero, mais isso importa.

11. Redes sociais ajudam ou atrapalham na visibilidade de quem escreve?
As redes sociais hoje são o grande “touché” dos compositores. Eu mesmo faço vídeos para o TikTok e Instagram criando músicas a partir de roletas aleatórias e já consegui diversos trabalhos importantes através disso. É onde o compositor pode mostrar o que ele, e só ele, sabe fazer.


12. Quem realmente “faz” um hit: o cantor ou o compositor?
Me desculpem os vocalistas, mas os compositores são os verdadeiros responsáveis pelos hits. Se a voz fosse mais importante, todos estariam ouvindo ópera agora ou demonizando o autotune estourado, mas não é o caso.