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Entrevista completa com Ravena Sunshine.

Entrevista com Ravena.

1. Você já sentiu que seu trabalho foi reconhecido menos do que deveria? Em que momento isso ficou mais evidente?
Bastante complexa a pergunta. Sim e não. Eu acredito que tenho muito potencial, inclusive no âmbito da escrita, mas acho que, na verdade, não é dada muita oportunidade para aqueles que não têm um nome tão grande na indústria. Não acho que tenha existido um momento específico em que enxerguei isso, mas é algo que pude sentir desde o dia em que iniciei no meio artístico, há muitos anos.

2. Como você enxerga o papel dos compositores dentro das premiações atuais?
Sinto que os compositores “estão ali”. Não recebem a mesma exaltação que talvez o artista que fez a interpretação da música recebe, mas, ao mesmo tempo, eu compreendo. Na minha visão, o compositor recebe suas homenagens do artista e, talvez, de si mesmo.


3. Já aconteceu de uma música sua fazer sucesso e seu nome não ser mencionado? Como isso te afetou?
Não acho que tenha uma motivação específica. Acho que tem muito mais a ver com a comercialização do intérprete. O compositor não tem rosto nem voz; a arte dele está na letra que está sendo cantada por outra pessoa. Então é mais sobre isso: o que é comercial e o que não é.


4. Na sua opinião, por que compositores ainda são pouco valorizados em categorias principais?
Já, sim! Fui indicada, na verdade, várias vezes em diversas categorias. Para mim, é sempre insano, porque eu sempre fui muito despretensiosa e sempre duvidei muito de mim mesma. Por isso, qualquer elogio, indicação ou até mesmo vitória, para mim, é algo muito maluco até hoje.

5. Você já foi indicado(a) a alguma premiação? Como foi essa experiência?
Não tenho muita certeza. Existem algumas premiações dedicadas a compositores, mas, ao mesmo tempo, sinto que são nichadas novamente àqueles que já possuem certo reconhecimento no meio. Talvez categorias de revelação em composição? Não sei.


6. O que você acha que precisa mudar nas premiações para dar mais visibilidade aos compositores?
Não tenho muita certeza. Existem algumas premiações dedicadas a compositores, mas, ao mesmo tempo, sinto que são nichadas novamente àqueles que já possuem certo reconhecimento no meio. Talvez categorias de revelação em composição? Não sei.

7. Você acredita que existe uma hierarquia injusta entre intérpretes e compositores?
Não diria injusta. Na verdade, acho até errado imaginar dessa forma. Eu acredito que são codependentes. Novamente, volto ao ponto do que é comercial e do que não é. O intérprete dá rosto e som à música, fazendo com que ela seja reconhecida. O compositor faz a música para que o intérprete tenha a visibilidade que possui. Talvez seja sobre o intérprete fazer mais questão de divulgar seu compositor, ou do compositor se fazer mais visto.

8. Como você define sua identidade como compositor(a)?
Sou muito conectada aos sentimentos que devem ser passados. Para mim, música é compartilhar a dor do coração com os outros, então minhas composições usualmente são voltadas para a vontade do intérprete: qual mensagem, qual imagem, qual sentimento.
Claro que eu tenho um viés mais poético e gosto muito do encaixe de raps e high notes, mas é… me considero uma poeta melancólica, capaz de se adaptar à insanidade das pessoas kkkk.


9. Você sente que sua “voz” é preservada quando outra pessoa interpreta sua música?
Acredito que sim. Na grande maioria das vezes, pelo menos, sinto que sim. E, mesmo que não seja exatamente preservada, eu tenho uma visão de que a arte é mutável. Minha voz pode ser preservada mesmo sob a visão dos olhos e da voz de um outro alguém. E, muitas vezes, acabo gostando mais na voz da pessoa kkk.

10. Já teve alguma composição que perdeu o sentido original ao ser interpretada por outro artista?
Pelo menos até hoje, não. Mas, como disse anteriormente, se acontecesse, para mim não seria um problema, porque arte é algo fluido e as interpretações sempre tornam tudo mais interessante.

11. O quanto você abre mão da autoria em prol do mercado?
Não muito. Eu acredito que todos têm seu papel e todos têm suas intenções a serem declaradas. Adaptação é uma coisa. Perder a alma é outra.


12. Você acredita que a invisibilidade dos compositores é estrutural ou cultural?
Novamente, ambos kkk. Existe uma questão estrutural, porque a indústria foi construída em torno da imagem do intérprete, mas também é cultural, porque o público foi acostumado a consumir música dessa forma, sem necessariamente se interessar por quem está por trás da criação.

13. As redes sociais ajudam nesse processo de visibilidade?
Ela tem o potencial de ajudar, porém, atualmente, não fazem nada. Acho que não prejudicam, porque, na verdade, quem escreve mal aparece!

14. O que o público pode fazer para mudar esse cenário?
Acho que começa pela curiosidade. O público poderia se interessar mais por quem está por trás das músicas que ama, ler créditos, pesquisar, compartilhar. Parece algo simples, mas já muda muita coisa. Às vezes, até para valorizar o trabalho do artista que escreve as próprias músicas, ou valorizar um novo escritor.


15. Quem realmente “faz” um hit: o cantor ou o compositor?
É uma união. Mas, honestamente? Se o cantor não entrega a composição, ela perde o valor. Então, na minha visão, o cantor kkk.

16. Você já se sentiu apagado(a) dentro de um sucesso?
Honestamente, não. Eu sempre tive a sorte de estar em ambientes onde meu trabalho foi reconhecido e respeitado, principalmente por pessoas próximas, que fizeram questão de valorizar o que eu criei. Mas isso não me faz ignorar que essa é uma realidade para muitos.