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Xuxa Majestic: a Vanguarda Artística e o Lado mais ácido da Internet

Há anos, a cantora Xuxa Majestic constrói sua trajetória no cenário artístico do FiveM, acompanhando, e também fazendo parte, das transformações de uma cena que deixou de ser vista apenas como parte do roleplay para se consolidar como um espaço de criação, música, audiovisual e expressão artística.

Na edição global de setembro da Ellu, dedicada a destacar a importância de Xuxa Majestic para a cena artística, conversamos com a cantora sobre sua trajetória, suas conquistas e os caminhos que pretende seguir daqui para frente.

Reconhecida pela consistência, personalidade e pelo cuidado com suas produções, Xuxa vive um novo momento da carreira com THE WEB PEOPLE (PROBLEM), álbum que parte do universo do FiveM para observar, de maneira provocativa e muitas vezes irônica, comportamentos que se tornaram comuns nas relações dentro e fora do roleplay.

Em entrevista à Ellu, a artista revisita sua trajetória, fala sobre competição, público, metaverso e a expansão de seu trabalho para além do FiveM. Xuxa também compartilha detalhes do processo de criação do novo álbum, suas inspirações, as participações no projeto e as contradições que atravessam sua nova obra.

Trajetória e futuro

ELLU: Xuxa, você é uma das pioneiras do cenário artístico. Quais são as suas considerações sobre a sua trajetória e o seu crescimento desde o início da carreira até os dias atuais?

Xuxa Majestic: Eu acho muito doido olhar pra trás porque, quando eu comecei, eu não tinha dimensão de quanto tempo isso faria parte da minha vida. São anos fazendo RP artístico, e eu comecei em uma época em que tudo era muito diferente do que é hoje. O cenário cresceu, as possibilidades cresceram e eu cresci junto, inclusive errando muito no processo. Acho que a principal diferença é que hoje eu sei muito melhor quem eu sou como artista. No começo eu queria experimentar tudo, provar muita coisa e ser aceita. Hoje eu tenho muito mais consciência do que eu quero fazer e, principalmente, do que eu não quero fazer. E tenho muito orgulho de ter conseguido me reinventar várias vezes sem abandonar aquilo que faz as pessoas reconhecerem que algo é meu.

ELLU: Quando pensa na expansão da sua carreira artística, quais objetivos você tem em mente para o futuro?

Xuxa Majestic: Eu acho que meu maior objetivo hoje é fazer com que o meu trabalho consiga ultrapassar cada vez mais a bolha do RP. Não necessariamente abandonar o FiveM, porque foi onde muita coisa nasceu e eu tenho um carinho enorme por isso, mas fazer projetos que consigam existir independentemente dele. Eu quero continuar lançando música, quero melhorar cada vez mais a parte audiovisual, fazer projetos maiores e experimentar coisas que eu ainda não fiz. Hoje eu penso menos em quantidade e mais em construir coisas que daqui a alguns anos eu ainda consiga olhar e sentir orgulho.

ELLU: Existe algo que você gostaria de ter feito em sua carreira, mas que ainda não teve a oportunidade de realizar?

Xuxa Majestic: Muita coisa. Mas acho que uma coisa que eu ainda quero muito é conseguir elevar a proporção de um projeto meu a um nível que eu ainda não consegui fazer. Um álbum acompanhado de uma experiência audiovisual realmente grande, por exemplo. Não simplesmente lançar clipes, mas criar um universo inteiro em volta de um projeto. Eu sinto que estou chegando cada vez mais perto disso.

Competição, crescimento e público

ELLU: Você considera que existe uma competição no cenário artístico atualmente? Até que ponto isso já afetou você? E você acredita que alguma de suas atitudes, ao longo da carreira, possa ter afetado outras pessoas?

Xuxa Majestic: Existe. E eu acho até meio ingênuo fingir que não existe. A partir do momento em que existem números, premiações, público, reconhecimento, oportunidades e pessoas querendo ocupar espaços parecidos, naturalmente vai existir comparação e competição. Isso já me afetou muito mais do que afeta hoje. Durante muito tempo eu me cobrava demais porque parecia que eu precisava estar sempre produzindo alguma coisa, sempre superando o que outra pessoa estava fazendo ou até superando a mim mesma. Isso é extremamente cansativo.

E seria hipócrita da minha parte dizer que eu só fui afetada e nunca afetei ninguém. Eu também já fui competitiva, já falei coisas que hoje provavelmente falaria de outra maneira, já comprei brigas e já devo ter feito outras pessoas se sentirem pressionadas pela maneira como eu conduzia minha carreira. Faz parte de olhar pra própria trajetória com maturidade, você não pode reconhecer apenas aquilo que fizeram com você.

ELLU: Na sua opinião, quais fatores foram essenciais para o seu crescimento no meio artístico e para a construção da sua relação com o público?

Xuxa Majestic: Consistência e personalidade. Eu nunca quis que as pessoas escutassem uma música minha e pensassem que ela poderia ter sido lançada por qualquer pessoa. Mesmo quando eu mudo de estética ou de sonoridade, eu tento colocar alguma coisa ali que seja muito minha.

E a minha relação com o público foi construída durante anos. Tem gente que acompanha fases minhas que eu mesma quase esqueço que existiram, principalmente as do início (risos). Acho que isso cria uma relação muito diferente, porque essas pessoas não conheceram só o produto final. Elas acompanharam acertos, fracassos, brigas, mudanças, músicas boas, outras nem tanto, tudo. Existe uma história compartilhada ali.

FiveM, metaverso e a expansão artística

ELLU: Qual é a sua visão sobre o metaverso e o FiveM? Você acredita que essa expansão do metaverso está sendo positiva para os artistas que começaram no FiveM?
Xuxa Majestic: Eu acho positivo principalmente porque começou a ficar mais difícil tratar o que é produzido dentro do FiveM como uma coisa menor. Durante muito tempo existiu essa ideia de que era “só RP”, quando tem gente compondo, produzindo música, dirigindo clipe, criando identidade visual, construindo palco, fazendo evento e aprendendo profissões inteiras através disso. Ao mesmo tempo, eu acho importante entender que o FiveM é uma ferramenta e não precisa ser uma prisão. Se um artista que nasceu aqui consegue levar o trabalho dele pra outros espaços, eu acho maravilhoso. Pra mim, a expansão mais interessante é justamente essa, quando a pessoa começa dentro desse universo, mas percebe que aquilo que ela aprendeu pode existir fora dele também.

THE WEB PEOPLE (PROBLEM)

A origem do álbum

ELLU: Vamos falar um pouco sobre o seu novo álbum. Quando começou a produção de THE WEB PEOPLE (PROBLEM)?

Xuxa Majestic: Começou em outubro de 2025, com “Cópia da Cópia”. E eu lembro que, quando comecei a conversar com o SidRaffa sobre o que eu queria fazer, eu falei que queria falar sobre o tecido social podre e morto do FiveM. Basicamente isso (risos). Porque eu já estava há muito tempo observando umas coisas muito específicas desse nosso mundinho e pensando no quanto elas tinham virado normais. E eu queria pegar desde a coisa mais idiota e insignificante possível até coisas que realmente são pesadas. Inveja, falsidade, necessidade de aprovação, gente obcecada por número, por aparência, por relevância, relações completamente estranhas… Só que eu não queria fazer um álbum moralista sobre isso. Até porque eu faço parte desse lugar e reproduzo algumas dessas coisas também.

Na verdade, uma coisa que eu falei desde o começo era que eu queria que algumas letras fossem tão absurdas e, ao mesmo tempo, tão familiares, que você pudesse ouvir e nem estranhar. E pra mim é aí que está a parte mais interessante: se eu canto uma coisa completamente absurda sobre a forma como a gente se comporta aqui e você acha normal, talvez seja porque aquilo já virou normal mesmo.

“Cópia da Cópia” foi onde eu comecei a testar isso. Depois eu fui percebendo que tinha assunto pra caralho. E aí virou um álbum.

ELLU: Como surgiu a ideia inicial do álbum e qual é o conceito por trás do projeto?

Xuxa Majestic: Acho que a ideia surgiu quando eu percebi que não estava escrevendo sobre pessoas específicas, mas sobre tipos de comportamento. Porque você muda o nome, muda a cidade, muda o grupo de amigos, e as figuras continuam existindo. Tem sempre alguém desesperado por aprovação, alguém que odeia uma pessoa mas continua andando com ela, alguém que transforma tudo em competição, alguém obcecado pela própria imagem… e, em algum momento, você também é uma dessas pessoas.

E acho que é daí que vem o “WEB PEOPLE”. Não são “as pessoas ruins da internet”. Somos nós. Eu também estou dentro do álbum, inclusive em coisas que não são bonitas de admitir. Eu não queria me colocar numa posição de quem observa tudo de fora e conclui que todo mundo enlouqueceu.

O “PROBLEM” vem quase como um diagnóstico dessa convivência. Cada música pega uma coisa que foi ficando normal demais dentro desse ambiente e aumenta um pouco o volume dela. Algumas são muito idiotas, outras são tristes, outras são realmente feias. Mas todas partem de coisas que eu reconheço nesse lugar.

Então, apesar de ser um álbum muito inspirado pelo FiveM e por essa rede social que a gente criou em volta dele, eu acho que ele acaba falando de internet no geral. O FiveM só me deu um laboratório muito pequeno e muito intenso pra observar tudo isso acontecendo.

ELLU: O álbum realmente reflete tudo aquilo que você pensa sobre os assuntos abordados nas músicas?

Xuxa Majestic: Não, e eu acho que seria muito limitante compor dessa forma. Eu não escrevo música como se estivesse dando um depoimento em cartório, em que tudo que eu digo precisa corresponder exatamente ao que eu penso ou ao que aconteceu. Tem muita coisa no álbum que eu acredito, obviamente, mas também tem exagero, tem contradição, tem coisa que eu escrevi simplesmente porque achei cruel, engraçada ou interessante de ouvir. Às vezes uma frase é ótima justamente porque eu jamais falaria aquilo numa conversa normal.

Eu gosto muito de escrever sem essa obrigação de ser coerente comigo mesma o tempo inteiro. Posso defender uma coisa numa música e, duas faixas depois, escrever a partir de uma lógica completamente contrária. Pra mim isso não é incoerência, é composição. Se tudo que eu cantasse precisasse ser necessariamente aquilo que eu penso, eu não estaria fazendo um álbum. Estaria gravando um programa da Madrinha Produções.

Participações e processo criativo

ELLU: Em algum momento, você ficou com receio de ser julgada ao abordar algum dos temas presentes no álbum?

Xuxa Majestic: Não exatamente. Acho que eu tive mais curiosidade pra saber até onde as pessoas iam levar algumas coisas do que medo de ser julgada.

Eu já estou há tempo suficiente fazendo isso pra saber que, se você entrega alguma coisa minimamente provocativa, alguém vai recortar uma frase, alguém vai achar que é sobre fulano, alguém vai se reconhecer sem ter sido citado e alguém vai decidir que aquela música revela alguma coisa terrível sobre você. Isso já vem no pacote.

E também seria meio contraditório fazer um álbum como esse e ficar tentando deixar tudo educado o suficiente pra ninguém se incomodar. Tem coisa ali que eu escrevi sabendo que ia causar uma reação ruim em determinadas pessoas. Não porque eu sentei pensando “como eu vou chocar?”, porque acho isso meio cafona, mas porque suavizar algumas ideias só pra parecer mais agradável acabaria estragando elas.

ELLU: Como aconteceram os convites para os demais artistas e pessoas envolvidas no projeto?

Xuxa Majestic: Isso foi mudando muito, inclusive bem perto do lançamento. Quando eu anunciei o álbum em agosto, eu divulguei uma tracklist específica. Se você pegar aquela tracklist e comparar com o álbum que saiu agora, é praticamente outro disco. [risos]

Nesse intervalo de mais ou menos um mês eu comecei a olhar pra algumas músicas e pensar que talvez eu estivesse tratando certos temas de uma forma muito rasa. E percebi também que, se eu estava fazendo um álbum sobre esse universo, não fazia sentido ele ficar restrito somente à minha experiência. Eu precisava colocar outras pessoas no meio dessa roda.

A Alicezita talvez seja o melhor exemplo disso. Como streamer, ela vive na pele vários dos problemas que eu estou colocando no álbum. E eu acho o trabalho de streamer meio cruel, pra ser sincera. Você precisa produzir entretenimento diariamente enquanto lida com um monte de gente que, às vezes, só entrou ali pra fazer palhaçada, provocar ou conseguir cinco minutos de atenção. Claro que existem várias formas de fazer live e vários tipos de conteúdo, então não quero generalizar a profissão inteira. Mas existe uma exposição muito particular ali.

E eu queria a Alicezita justamente porque acho que ela tem personalidade. Ela não é uma pessoa que eu olho e penso que poderia ser substituída por qualquer outra e daria no mesmo. Ela tem uma presença muito própria, um jeito muito específico de existir nesse meio. Inclusive isso conversa diretamente com “Escondam as Básicas”. Pra mim, ela é diferente das demais. Ela é diferente das “básicas”.

Então algumas participações acabaram surgindo dessa necessidade de abrir o álbum. Não era colocar um feat porque ficaria bonito na tracklist. Em alguns momentos eu percebi que existiam coisas que seriam muito mais interessantes se fossem ditas por alguém que vive aquele assunto de um lugar diferente do meu.

ELLU: Existe algum artista que você pensou em convidar para o álbum, mas que, por algum motivo, acabou não participando?

Xuxa Majestic: Não exatamente, mas acho isso curioso… Porque por eu estar aqui há muito tempo e acho que existe um peso nisso. Não necessariamente um peso de “ser maior” que alguém, mas de ter vindo antes, de ter participado da construção de muita coisa e, principalmente, de sempre tentar estar um pouco à frente artisticamente. Eu gosto muito da palavra vanguarda porque acho que ela explica melhor do que “pioneira”. Não é só sobre ter chegado cedo, é sobre ter passado esses anos tentando propor coisas novas.

E eu sei que, por causa disso, pra muita gente uma colaboração comigo tem um significado diferente. Principalmente pra quem começou depois e, em algum momento, acompanhou o meu trabalho antes de estar do meu lado fazendo música. Existe uma sensação de conquista ali. De “caralho, agora eu tô fazendo uma música com a Xuxa”. E eu não acho feio reconhecer isso, porque eu também já olhei pra pessoas dessa forma. Talvez por isso eu tenha o privilégio de conseguir escolher muito bem quem eu quero trazer pros meus projetos. Quando eu faço um convite, normalmente existe vontade do outro lado também.

Só que isso aumenta minha responsabilidade na escolha. Porque, se existe esse peso em um convite meu, eu também não quero transformar participação em figurinha de álbum. Eu quero chamar alguém porque aquela pessoa tem alguma coisa que eu não tenho e que aquela música precisa.

As faixas e a relação com o álbum

ELLU: Qual foi a música mais difícil de compor?

Xuxa Majestic: “Território Marcado”, com certeza. Inclusive foi uma música em que eu precisei chamar o Passos pra compor comigo, porque sozinha eu não estava conseguindo chegar exatamente onde queria.

E eu acho isso super normal na composição. Eu amo trabalhar com outros compositores. Saber que existem pessoas tão boas quanto você te dá uma tranquilidade muito grande de entender que você não precisa ser genial e resolver tudo sozinho o tempo inteiro. Às vezes outra pessoa encontra em cinco minutos aquela frase que você está há três dias tentando escrever. [risos]

E “Território Marcado” tinha uma contradição que eu queria muito acertar. Ela precisava ter aquele ar que toda estrela tem de “eu sou especial, eu brilho mais do que todo mundo, esse lugar é meu”, mas ao mesmo tempo precisava lembrar pra essa mesma estrelinha do pop de que existem outras estrelas no universo. Você pode até achar que descobriu um lugar novo, só que não… E daí vem, “mas toma cuidado você vive num mundo onde quase tudo já é território marcado”.

E eu entendo os dois lados disso porque eu já fui a pessoa que quis colocar limite no próprio espaço. De olhar pra alguém e pensar: “você está se aventurando demais numa coisa que é minha”. Acho que quase todo artista, em algum momento, sente que alguém atravessou uma fronteira invisível que não deveria atravessar. E talvez muitas das nossas brigas comecem exatamente aí.

O problema é que ninguém recebeu o mapa mostrando onde termina o território de um e começa o do outro (risos). Então ninguém sabe exatamente o limite do outro, o que torna tudo menos respeitável e mais problemático.

ELLU: Entre todas as faixas, qual é a sua música favorita do álbum?

Xuxa Majestic: Eu genuinamente não tenho. E não é aquela resposta diplomática de artista de “ai, são todas meus filhos, não consigo escolher”. [risos] É porque minha favorita muda o tempo inteiro.

Tem períodos em que uma música fica muito mais no meu ouvido, eu quero escutar toda hora, acho que é a melhor coisa que eu já fiz. Aí passam alguns dias e eu praticamente esqueço dela porque outra tomou aquele lugar. E isso aconteceu durante toda a produção.

Acho que também depende muito do que eu estou vivendo e até do meu humor. Tem faixa que eu gosto mais de ouvir, tem faixa que eu gosto mais da letra, tem uma que eu acho mais divertida, outra que eu acho mais inteligente… então nunca consegui estabelecer uma hierarquia muito fixa entre elas.

Talvez daqui a alguns anos, quando eu tiver uma distância maior do álbum, eu consiga olhar e falar “essa aqui ficou acima das outras”. Agora eu ainda estou perto demais dele. Elas ficam se revezando no meu ouvido.

ELLU: Quais são as suas expectativas em relação à recepção do público ao álbum?

Xuxa Majestic: Eu tento não criar expectativa demais porque público é uma coisa completamente imprevisível. As músicas que você tem certeza que vão ser as favoritas às vezes passam despercebidas, e aquela que você quase tirou do álbum vira a música que todo mundo escolheu pra amar. Então eu já desisti um pouco de tentar adivinhar. [risos]

Mas existe uma ansiedade, claro. Eu passei quase um ano convivendo com essas músicas antes das pessoas ouvirem. Pra mim elas já têm história, já mudaram de versão, já me irritaram, já voltaram a me agradar… e pro público tudo isso começou agora. É muito estranho entregar uma coisa que pra você já viveu tanto e assistir às pessoas conhecendo pela primeira vez.

Eu quero números bons, quero que as músicas circulem, quero que as pessoas tenham vontade de ouvir de novo. Não vou fingir que artista lança álbum e fica completamente desapegado dessas coisas porque eu não fico. [risos]

Mas acho que a parte que mais me interessa agora é descobrir o que vai acontecer com essas músicas sem mim. Qual vai ser escolhida pelo público, qual vai ser injustiçada, qual frase vai virar coisa entre eles, qual eu achei que seria enorme e ninguém vai dar a mínima… Agora já não sou eu que decido mais.

ELLU: Você considera THE WEB PEOPLE (PROBLEM) o seu trabalho favorito até agora?

Xuxa Majestic: Eu acho muito difícil dizer isso porque seria meio injusto comparar trabalhos que foram feitos por versões completamente diferentes de mim. Tem coisa antiga minha que hoje eu jamais faria daquele jeito. Eu mudaria a composição, a produção, o visual, provavelmente mudaria tudo. Mas aquela Xuxa não sabia o que eu sei hoje. E, dentro do que ela sabia fazer naquela época, aquilo era o máximo que ela conseguia entregar. Eu tenho muito carinho por isso.

THE WEB PEOPLE (PROBLEM) talvez seja o trabalho que melhor representa a artista que eu sou agora. Eu me sinto muito mais segura pra escrever, pra descartar uma ideia que não está boa, pra pedir ajuda, pra mudar uma tracklist inteira faltando um mês pro lançamento sem entrar em desespero. [risos]

Então não sei se chamaria de favorito. Acho que é o trabalho em que eu mais reconheço quem eu sou artisticamente hoje. E espero muito que ele deixe de ocupar esse lugar em algum momento, porque vai significar que eu consegui fazer alguma coisa depois que me representa ainda melhor.

A artista por trás da personagem

ELLU: Qual a principal diferença da Xuxa artista pra Xuxa fora dos palcos? Você considera que consegue equilibrar bem?

Xuxa Majestic: Acho que a Xuxa artista tem uma necessidade de ser percebida que eu não tenho fora dela. E muita gente vai achar estranho eu dizer isso, mas a verdade é que se isso não fosse verdade, eu estaria agora lançando música e trabalhando com meu alter ego “Pebe”, e não com uma personagem 3D.

A Xuxa é mais provocativa, ela quer que olhem, quer deixar alguma coisa depois que sai da sala. Eu, particularmente, gosto bastante de não ser assunto. E hoje me equilibro bem porque aprendi que nem tudo que acontece comigo precisa virar material pra artista. Tem coisas que eu prefiro que continuem sendo só minhas.

ELLU: Se pudesse dizer algo pra Xuxa que começou lá atrás, o que diria?

Xuxa Majestic: Acho que eu abraçaria ela e falaria: “continua”. Clichêzão (risos). Mas diria que ela vai perder pessoas, vai comprar umas brigas completamente desnecessárias, vai passar vergonha algumas vezes e em umas três ocasiões vai jurar que sua carreira acabou. Não gata, nada acabou. Seis anos depois, ainda vai ter gente querendo ouvir o que você tem pra cantar, ainda vai ter coisa nova pra inventar e, por algum motivo inexplicável, ainda vão te dar um microfone.

Só tentaria não contar muita coisa. Vai que ela resolve tomar decisões melhores e estraga toda a história. (risos)


Ao longo da conversa, Xuxa Majestic deixa claro que THE WEB PEOPLE (PROBLEM) não representa apenas mais um lançamento em sua trajetória. O álbum funciona também como um registro do momento atual da artista: mais consciente de sua identidade, mais aberta às próprias contradições e interessada em transformar experiências de um universo específico em algo que possa ser compreendido para além dele.

Entre música, audiovisual, internet e as relações construídas dentro do FiveM, Xuxa segue explorando novos caminhos sem abandonar as características que marcaram sua trajetória. E, se existe uma constante em sua história, talvez seja justamente essa: continuar criando, experimentando e encontrando novas formas de colocar sua assinatura em tudo o que faz.