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EXISTIR, RESISTIR, BRILHAR

Victoria Machado fala sobre transição, cancelamento e sua trajetória rumo à capa global da Ellu

Victoria Machado — Foto: Reprodução/ELLU MAGAZINE

Ser uma mulher trans no mundo hoje ainda significa, para muitas, atravessar um caminho de constante reafirmação. A cada espaço ocupado, a cada conquista alcançada, vem junto a cobrança silenciosa de precisar provar a própria existência. A transfobia se manifesta de formas visíveis e invisíveis: no comentário disfarçado de piada, na dúvida velada sobre identidade, na exigência de que a vivência trans siga um roteiro pré-definido para ser considerada “válida”. E o mais doloroso é que, muitas vezes, esse julgamento não vem apenas de fora, ele também aparece dentro da própria comunidade LGBTQIAPN+, em disputas sobre quem tem ou não o direito de ocupar determinados espaços, discursos e narrativas.

Ainda assim, é justamente nesses percursos marcados por resistência que nascem histórias de superação e amadurecimento. Para esta edição Global Trans, a ELLU conversou com Victoria Machado sobre os diferentes capítulos de sua trajetória, da transição iniciada ainda jovem até o encerramento de um projeto que a marcou profundamente, passando por acusações que colocaram sua identidade sob suspeita, pelos bastidores de conflitos dentro da Família Machado e pela militância que ela carrega dentro do FiveM. Victoria também abre o coração sobre amizades que a sustentam, sobre o significado de estampar a capa global da Ellu e sobre o momento de gratidão e amadurecimento que vive na carreira. A seguir, a entrevista na íntegra.

Você começou sua transição ainda muito nova. Como foi esse processo no início e o que mudou na forma como você encara ele hoje, olhando pra trás?

Comecei minha transição ainda muito nova, então boa parte desse processo aconteceu junto com o meu próprio crescimento e descoberta de quem eu sou. No início, eu tinha muita ansiedade e sentia uma necessidade grande de ser aceita e reconhecida pelas outras pessoas. Cada mudança parecia enorme e eu colocava muita expectativa em alcançar uma imagem ideal de mim mesma.

Hoje, olhando para trás, percebo que a transição não foi apenas sobre aparência, mas principalmente sobre me permitir viver de forma mais autêntica. Ainda existem desafios, mas aprendi a ter mais paciência comigo mesma e a entender que minha identidade não depende da validação dos outros. O que mais mudou foi a forma como eu me vejo: hoje tenho mais confiança, mais maturidade e valorizo muito mais a minha felicidade e o meu bem-estar do que a busca pela perfeição.

Você já foi dona da Bronx, uma casa/cidade que fechou. O que essa fase representou na sua trajetória e o que você levou dela?

Ser dona da Bronx foi uma fase muito importante da minha vida, porque representou muito mais do que um espaço físico. Foi um projeto construído com muito carinho, dedicação e vontade de criar um ambiente onde as pessoas pudessem se sentir acolhidas, livres e representadas. Durante esse período, aprendi muito sobre liderança, gestão, responsabilidade e também sobre como lidar com desafios e mudanças.

Apesar do encerramento da Bronx, eu não vejo essa etapa como um fracasso, mas como um ciclo que teve sua importância e deixou muitos aprendizados. Levo comigo as conexões que construí, as experiências que vivi e o crescimento pessoal e profissional que esse projeto me proporcionou. Foi uma fase que ajudou a moldar quem eu sou hoje e me preparou para novos caminhos e oportunidades.

Victoria Machado — Foto: Reprodução/ELLU MAGAZINE

Você já enfrentou acusações de transfobia, quando achavam que você era uma “gay fake”. Como foi viver isso, e como você processa quando o próprio discurso sobre a comunidade é usado contra você?

Foi uma situação muito difícil porque, quando você faz parte da comunidade LGBTQIAPN+, espera encontrar acolhimento e compreensão. Ser chamada de “gay fake” ou ter minha identidade questionada por outras pessoas foi algo que me machucou, principalmente porque ninguém além de mim pode definir quem eu sou ou a forma como eu vivo minha identidade.

Com o tempo, entendi que a comunidade também é formada por pessoas diferentes, com opiniões, experiências e visões distintas. Nem sempre haverá concordância, e às vezes os debates acabam se tornando muito pessoais. Hoje procuro processar essas situações com mais maturidade, ouvindo críticas quando elas são construtivas, mas sem permitir que opiniões externas definam minha verdade.

Aprendi que fazer parte da comunidade não significa pensar igual a todo mundo. Significa existir com autenticidade, respeitar as diferenças e defender o direito de cada pessoa viver sua própria trajetória. No fim das contas, o que me sustenta é saber quem eu sou e a história que vivi para chegar até aqui.

A cultura do cancelamento tem sido cada vez mais discutida. O que você pensa sobre esse fenômeno, principalmente quando atinge pessoas LGBTQIA+?

Acredito que a cultura do cancelamento é um tema muito complexo. Entendo que as pessoas precisam ser responsabilizadas por atitudes que causam danos, principalmente quando envolvem preconceito, discriminação ou desinformação. Ao mesmo tempo, acho perigoso quando não existe espaço para diálogo, aprendizado ou evolução.

Quando isso acontece com pessoas LGBTQIA+, a situação pode ser ainda mais delicada. Muitas vezes estamos falando de pessoas que já enfrentam exclusão social e que, mesmo dentro da própria comunidade, podem ser colocadas em posições de julgamento muito rígidas. Nem toda crítica é cancelamento, mas nem todo cancelamento gera reflexão também.

Hoje eu acredito mais na responsabilidade acompanhada da possibilidade de crescimento. As pessoas erram, aprendem, mudam de opinião e amadurecem. Para mim, o mais importante é avaliar intenções, contexto e, principalmente, se existe disposição real para ouvir, corrigir e evoluir. Acho que uma comunidade forte é aquela que consegue cobrar, mas também acolher e permitir que as pessoas cresçam.

A Família Machado é um nome bem conhecido e também polêmico no cenário. O que esse coletivo/família significa pra você e como você lida com a exposição que vem junto? Principalmente em termos de brigas.

A Família Machado representa, para mim, muito mais do que um nome. É uma rede de pessoas que compartilharam momentos importantes, tanto os bons quanto os difíceis. Como toda família, existem diferenças de opinião, conflitos, reconciliações e aprendizados.

A exposição acaba amplificando tudo. Quando existe uma briga ou desentendimento, muitas vezes as pessoas de fora enxergam apenas um recorte da situação e criam suas próprias narrativas. Isso pode ser desgastante, porque nem tudo que acontece nos bastidores cabe na internet.

Hoje eu tento lidar com isso de uma forma mais madura. Entendo que divergências fazem parte de qualquer relação humana, principalmente quando existem personalidades fortes e pessoas que também estão expostas ao público. O mais importante para mim é não deixar que momentos de conflito apaguem toda a história, o carinho e os aprendizados construídos ao longo do caminho.

Aprendi que nem toda briga precisa virar guerra, nem toda discordância precisa virar rompimento definitivo. Procuro resolver as coisas com diálogo quando possível e seguir em frente quando não é. No fim das contas, o que levo comigo são as experiências, os laços verdadeiros e tudo o que contribuiu para o meu crescimento pessoal.

Você tem amizades fortes, como com a Sasha e a Luanna. Qual o papel dessas amizades na sua vida?

A Sasha e a Luanna têm um papel muito importante na minha vida porque são pessoas que estiveram ao meu lado em diferentes momentos da minha trajetória. Quando você vive sob exposição constante, ter amizades verdadeiras faz toda a diferença. São pessoas com quem eu posso compartilhar conquistas, dificuldades, inseguranças e também momentos leves. Elas me lembram que existe vida além da internet e que os laços genuínos são muito mais importantes do que qualquer status ou visibilidade.

Você luta muito pela bandeira. O que te move nessa militância e quais são as pautas trans que você considera mais urgentes hoje dentro do FiveM?

O que me move é saber que muitas pessoas trans ainda enfrentam barreiras para ocupar espaços com respeito e dignidade. Dentro do FiveM, acredito que uma das pautas mais urgentes é o combate à transfobia, seja ela explícita ou mascarada como brincadeira. Também considero importante ampliar a representatividade, garantir que pessoas trans sejam ouvidas e criar ambientes onde elas possam existir sem precisar justificar constantemente quem são. A inclusão precisa ser uma prática diária, não apenas um discurso.

Victoria Machado — Foto: Reprodução/ELLU MAGAZINE

Você faz parte da fraternidade Angels. O que essa fraternidade representa pra você e qual o papel dela na sua trajetória dentro da comunidade?

AsAngels representa acolhimento, parceria e senso de pertencimento. Em uma comunidade tão grande e diversa, encontrar um grupo de pessoas com quem você compartilha valores e objetivos é algo muito especial. A fraternidade teve um papel importante na minha trajetória porque me proporcionou amizades, experiências e momentos que contribuíram para meu crescimento dentro e fora do jogo.

Esse mês a impressão geral foi de que as marcas meio que esqueceram o mês LGBT. Qual sua opinião sobre isso?

Eu acho que foi algo que chamou atenção de muita gente. Entendo que existam outros eventos importantes acontecendo, como a Copa, mas isso não deveria apagar a importância do Mês do Orgulho. Quando as marcas apoiam a comunidade apenas em determinados momentos, fica a sensação de que o compromisso é mais comercial do que genuíno. Para mim, apoio de verdade é algo construído durante o ano inteiro. A visibilidade LGBTQIA+ não deveria ser tratada como uma pauta secundária ou opcional.

O que significa para você estrelar a capa global da Ellu?

Estrear na capa global da Ellu é uma conquista que me emociona muito. Não vejo apenas como um reconhecimento individual, mas também como um símbolo de representatividade. Saber que uma mulher trans pode ocupar esse espaço e ter sua história valorizada é algo que carrega um significado enorme para mim. É um daqueles momentos que fazem a gente olhar para trás e perceber o quanto caminhou.

Qual sua relação com a Ellu Magazine e o que você acha da revista e da proposta dela?

Tenho muito respeito pela Ellu e pela proposta que ela traz. A revista abre espaço para diferentes histórias, trajetórias e perspectivas dentro da comunidade, valorizando pessoas que ajudam a construir esse cenário todos os dias. Acho importante existirem iniciativas assim, porque elas registram histórias, promovem visibilidade e ajudam a fortalecer a cultura da comunidade.

Como você está se sentindo nesse momento da carreira?

Estou em um momento de muita gratidão e reflexão. Olho para tudo o que vivi até aqui e vejo desafios, conquistas, erros, aprendizados e muita evolução. Ainda tenho muitos objetivos e sonhos, mas hoje me sinto mais segura sobre quem eu sou e sobre o que quero construir. Acho que estou vivendo uma fase de amadurecimento, entendendo melhor meu propósito e valorizando cada oportunidade que surge pelo caminho. Mais do que números ou reconhecimento, meu foco é continuar sendo autêntica e deixar um impacto positivo por onde eu passar.