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Entre linhas e liberdade.

Abel Bohs fala sobre bissexualidade, moda e os próximos passos da Lovekiller.

Abel Bohs — Foto: Reprodução/ELLU MAGAZINE

Falar sobre bissexualidade ainda é, em muitos espaços, falar sobre uma ausência. Ausência de representação, de linguagem precisa e, principalmente, de legitimidade. Pessoas bissexuais ocupam um lugar curioso dentro da própria comunidade LGBTQIAP+: ao mesmo tempo em que fazem parte da sigla desde sempre, seguem sendo as primeiras a terem sua identidade colocada sob suspeita. Há quem diga que bissexualidade é “fase”, que é “frescura”, que é uma forma confortável de transitar entre privilégios, ou ainda que só existe de fato quando comprovada por um número equilibrado de relacionamentos com diferentes gêneros — como se atração fosse uma planilha a ser auditada. Esse fenômeno tem nome: invisibilidade bissexual. E ele não vem apenas de fora. Muitas vezes, vem de dentro de relacionamentos, de rodas de amigos, de comentários soltos que carregam julgamento disfarçado de piada.

É dentro desse cenário que a conversa sobre bissexualidade se torna urgente — não como um exercício teórico, mas como um relato de quem vive essa identidade no corpo, no trabalho e nas relações do dia a dia. Para esta edição pride, dedicada às vivências bissexuais, a ELLU conversou com Abel Bohs, criador da Lovekiller, sobre como a bissexualidade atravessa sua estética, sua relação com a moda e os bastidores de uma marca que nasceu dentro da comunidade queer. Mas o papo não parou por aí: também passamos pelos desafios de empreender em meio a um mercado que muitas vezes esvazia o mês do orgulho, pelas mudanças de equipe que marcaram a trajetória da Lovekiller e por um momento pessoal importante — a primeira capa de revista de Abel, estampando justamente a publicação que abriu suas primeiras portas. A seguir, a entrevista na íntegra.

Bissexualidade e invisibilidade bissexual

Como você sente que a bissexualidade influencia sua estética e seu trabalho como criador de roupas?

Acho que ser membro da comunidade queer influenciou mais do que especificamente bi. Acaba que recebemos muita influência do pop, da música, da arte como um todo e isso querendo ou não serve de inspiração na hora de montar uma coleção ou consumir referências.

Muita gente diz que a bissexualidade “se invalida” quando a pessoa entra em um relacionamento, sendo lida como hétero ou como gay dependendo do parceiro.
Você já viveu isso? Como lida?

Estar em um relacionamento heteronormativo no momento faz com que eu escute isso com muita frequência. Às vezes até coisas horríveis e meio pesadas como “Tomou a cura gay” se torna rotineiro nessa situação. Não é de ontem que lido com esses comentários, então hoje em dia não me afeta mais. Sei da minha verdade, do que sinto pelas pessoas independente da sua identidade de gênero, e tento conscientizar sobre isso quando ocorrem comentários desagradáveis.

Abel Bohs — Foto: Reprodução/ELLU MAGAZINE

Existe um estereótipo recorrente que liga bissexualidade à promiscuidade. Na sua visão, de onde vem isso e como ele te afeta (ou afetou)?

Acho que a ideia de que alguém se atrai por qualquer um dos gêneros traz consigo essa premissa de que a pessoa tem uma vida sexual hiperativa por ter mais “opção”. Porém, ter mais opção não significa que a pessoa não tenha seletividade, ou que opção seja sinônimo de oportunidade. Por muito tempo eu reprimi minha sexualidade, mesmo me conhecendo como um homem bi, por não querer cair nesse estereótipo de promíscuo. Com o tempo, eu levei isso como uma oportunidade de impor mais sensualidade, mesmo não sendo da maneira que as pessoas esperam (múltiplos relacionamentos e hiper vulgaridade).

A bissexualidade costuma ser tratada como uma divisão exata “50/50” entre atração por homens e mulheres, o que está longe da realidade.
Como você desconstruiria essa ideia?

Acho que para desconstruir qualquer ideia é necessário conscientizar. Conversas saudáveis e calmas podem mostrar para alguém que não é 100% assim. Cada indivíduo tem suas peculiaridades, então não dá pra afirmar que não existe alguém com essa divisão exata, mas mostrar que cada um funciona de uma forma única pode quebrar essa ideia. Afinal, bissexualidade não é um equilíbrio entre alguém hétero e homossexual, e sim uma pessoa livre de amarras quando se trata de a quem direcionar seu amor.

Quais referências, artistas, criadores, pessoas públicas ou da sua vida pessoal mais te encorajaram a viver sua bissexualidade com mais liberdade?

Minhas referências foram totalmente tiradas de séries e do mundo pop. Desde muito cedo eu era fã de artistas abertamente bissexuais como Halsey, Bad Bunny, Frank Ocean, Tyler Posey, Peter Quill (Star-Lord), entre outros.

Enquanto dono de loja, esse mês a impressão geral foi de que as marcas meio que esqueceram o mês LGBT — vimos uma ou no máximo duas fazendo algum adereço ou ação relacionada, enquanto tudo parecia girar em torno da Copa, e a comunidade ficou meio esquecida nesse meio. Qual sua opinião sobre isso?

Querendo ou não, as lojas são um trabalho. Ter uma marca te coloca constantemente em frente da necessidade de tomar decisões administrativas visando o sustento do criador e do negócio em si. Infelizmente, dentro da nossa comunidade em específico, coleções PRIDE não são valorizadas e quistas pelos donos de servidores por não trazer tanto retorno quanto uma coleção de “brazilcore” (estética em alta no momento). E, por conta disso, não aceitam pagar por um trabalho feito por alguém da comunidade para a própria comunidade. Apesar da correria com nossa coleção principal, resolvemos lançar uma camisa com referências da coleção PRIDE da Balenciaga de 2022 de graça no Patreon. Na descrição do drop também deixamos o link do site de doações da ONG Casa 1 para quem quiser contribuir. Se nós mesmos não apoiarmos nossa própria comunidade, não será do nada que os servidores também irão apoiar.

Lovekiller

A campanha demorou para sair. O que aconteceu nesse processo e o que você aprendeu com essa demora?

Com certeza aprendi a como ter uma marca e ainda sigo aprendendo. No início, eu e todos da equipe estávamos vivendo tudo pela primeira vez. Não sabíamos realmente como era ter uma marca, o que precisava ser feito antes de tudo, como se planeja uma coleção. Coisas que se aprende fazendo, difícil de alguém realmente ensinar sem ser na prática. Tivemos mudanças administrativas, outras de planejamento da marca e contratempos, mas tudo serviu de experiência para nossos futuros projetos.

Como foi o período logo depois do primeiro desfile da marca, emocionalmente e profissionalmente?

Antes do primeiro desfile tudo ainda estava meio incerto. Não tinham tantas pessoas tão interessadas no projeto ou que queriam participar dele. Emocionalmente foi bem gratificante, foi um desfile lindo, cercado de pessoas que apoiaram o projeto antes de ter um nome, e isso foi muito importante pra mim. Profissionalmente abriu inúmeras portas que eu nem esperava e que estou animado para entrar nelas.

Abel Bohs — Foto: Reprodução/ELLU MAGAZINE

Quais são os próximos passos da Lovekiller?

Temos muitas coisas planejadas ainda para esse ano: alguns drops no Patreon, uma extensão ainda maior da marca, collabs, mas acho que principalmente estruturar um pouco melhor o que é a Lovekiller além da coleção BGDA.

A marca passou por mudanças na equipe, como a saída do Foguinho e a possível saída da Noah.
Você pode falar um pouco sobre o que motivou essas mudanças e quais são as metas da Lovekiller daqui pra frente?

Foguinho e Noah são pessoas que apoiaram muito o projeto antes de ter um nome. São amizades que surgiram há anos atrás. Se hoje eu estou nesse universo, foi porque vim junto com um deles. Mas envolver trabalho com amizades de longa data pode ser um combo muito certo, como também pode ser uma combinação extremamente caótica e complicada. Dentro da Lovekiller não foi um match, mas nunca serei alguém que deixa de apoiar um velho amigo quando as coisas não saem como o planejado. Desejo muito sucesso para ambos. A meta principal é entregar cada vez mais qualidade e moda, mesmo que casual fashion.

Já tem alguma ideia sobre a próxima coleção?

Posso dizer que a próxima já está em preparação e mais perto do que possam imaginar. Estou mega animado para ver a reação de todos.

Qual é a sua relação com a moda hoje, quando ela começou e como ela mudou ao longo do tempo?

Desde muito novo eu fui alguém que se sentia atraído pelo mundo da moda, mesmo que de uma maneira contida, com medo dos julgamentos. Conforme fui amadurecendo, me assumindo abertamente como um homem bi, essa paixão foi se tornando algo cada vez mais exposto e presente na minha vida. Hoje em dia, moda é uma terapia para mim, um hobby e um trabalho.

Como é seu relacionamento com a Cleo Garcia e como ela atravessa (ou não) sua vida criativa?

Antes mesmo de eu me tornar próximo da Cleo, ela já era uma grande inspiração. Uma das poucas criadoras que conseguiu romper as barreiras desse universo e aparecer em revistas como Vogue e Dazed. É de um imenso privilégio poder ter alguém tão foda como ela sendo minha companheira de vida. Muitas decisões criativas da marca eram tomadas com a premissa do que eu conseguiria ou não fazer, e ela foi a principal responsável por quebrar essas amarras, mostrando que eu era melhor do que pensava. É algo muito mútuo e gratificante.

Abel Bohs — Foto: Reprodução/ELLU MAGAZINE

O que significa pra você ser a sua primeira capa de revista, e especialmente ser na Ellu?

A Ellu foi meu primeiro contato com esse universo de fama. Antes mesmo das pessoas saberem quem era Abel, a Ellu e a Dynasty já abriam portas para que eu pudesse participar de eventos, mesmo sem me conhecerem de verdade. Eu sempre tive esse momento como meta. Cresci vendo pessoas da minha família conquistando capas icônicas, como a do meu pai, Meta Icon Gab Bohs, e aquilo sempre me inspirou a buscar a minha própria. Por isso, ter minha primeira capa justamente na primeira revista que me deu tantas oportunidades é motivo de uma gratidão enorme. Sinto como se um ciclo antigo se completasse agora, abrindo espaço para o início de outro ainda mais bonito.

Qual é a sua relação com a Ellu Magazine e, já que estamos falando nisso, qual sua opinião sobre a revista?

É uma relação sincera de amizade e gratidão, como citei anteriormente. Para mim, a Ellu só tem a crescer cada vez mais dentro de todos os universos possíveis. Isso se dá justamente por conseguir se moldar às vontades e tendências de quem acompanha. Um exemplo disso são os Ellu Nows, candids e tantos outros eventos anuais. Desejo todo sucesso do mundo a vocês!